Atualizado em 17/01/2026 – 06:39
Nos estertores do ano de 2025, as redes sociais apresentaram uma cena dantesca, na qual um casal de milionários decidiu lançar, a bordo de um helicóptero, quilos de carne bovina para pessoas pobres e famintas em algum lugar esquecido deste país. O que deveria ser alimento transformou-se em estilhaços de indignidade com a explosão de uma granada de efeitos imorais, convertendo o que era desespero em tumulto e humilhação.
Menos mal seria se fosse um gesto de caridade liberal para expurgar a culpa cristã que devora essas pessoas por dentro: era um ato de dominação política, tudo obviamente registrado pelos cidadãos de bem em formato instagramável, cujos filtros não foram capazes de apagar a torpeza. Ali, o ruído das hélices servia como tradutor do abismo social: “Nós pairamos e vocês rastejam”, com aquela terra ressequida tornando-se palco do primeiro ato de um trágico espetáculo, no qual a sujeição foi encenada e exposta para o deleite voyeurista de uma audiência digital insaciável. É o horror sendo fagocitado pelo algoritmo, revelando uma patologia social que, pela dose de sadismo, deveria pleitear sua inclusão no próximo CID-12.
Essa cena não é apenas ofensiva, ou mesmo um erro de etiqueta: é a expressão sangrenta da luta de classes no Brasil. A aeronave não é um detalhe logístico, mas o símbolo máximo da nossa estratificação: enquanto a elite flutua sobre o país real, o povo disputa o resto no chão. A imagem é obscena justamente por ser verdadeira. Ela escancara um sistema no qual a opulência de poucos exige, como regra, a indigência de muitos.
A chamada “boa ação” é, na realidade, um mecanismo clássico do capitalismo: formatar a ideologia* e transformar a exploração em virtude, a desigualdade em espetáculo e a humilhação em promoção pessoal. O gesto serve para aliviar a consciência da elite e anestesiar a revolta social, sem tocar em absolutamente nada do que produz a fome.
Não estamos diante de um desvio moral isolado, mas de um projeto de classe. A elite do atraso* brasileira não deseja a abolição da pobreza, ela anseia por administrá-la, controlá-la e, se possível, transformá-la em engajamento. Quer continuar acumulando lucros extraídos da mais-valia e da sonegação de tributos, enquanto sustenta um modelo que condena milhões à insegurança alimentar.
Essa “caridade aérea” é uma pedagogia da submissão. Ela tenta convencer o explorado de que a migalha caída dos céus por obra dos deuses do capitalismo é um privilégio, sendo a gratidão a única resposta possível à barbárie. Mas a fome não é ausência de comida: é excesso de desigualdade e resignação. O objetivo é convencer os explorados de que a humilhação é melhor do que a revolta.
O problema não é a falta de doadores, mas a presença de um sistema que concentra o mundo nas mãos de poucos para distribuir os restos aos demais.
A verdadeira solidariedade não vem do alto. Vem do chão em luta. E, enquanto houver quem sobrevoe a miséria como espetáculo, haverá quem se levante para tentar erodir esse sistema que transforma a fome em likes e a desigualdade em algo natural.
Por fim, disse o abalado milionário em entrevista*: “Já faço isso há 11 anos. Nunca imaginei que iria passar por isso”.
Pois digo a vocês, caros leitores: os brasileiros já passam por isso há 500 anos.
Avante! Até a próxima!
Referências no texto:
*A Ideologia Alemã, livro escrito por Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX.
*A Elite do Atraso – da escravidão à ascensão da extrema-direita, livro escrito por Jessé Souza em 2025.
*Matéria jornalística disponível em : <https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2025/12/27/frigorifico-que-usou-helicoptero-para-jogar-carne-a-moradores-diz-ter-seguido-criterios-de-seguranca-apos-nao-conseguir-organizar-fila.ghtml>. Acesso em: 14 jan 2026.

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