Pela legislação brasileira, o voto é facultativo para cidadãos com mais de 70 anos. Aos 98 anos de idade, entretanto, o senhor Carlito Cruz entende a importância de participar das eleições. Ele votou no primeiro turno e garante que estará novamente nas urnas no próximo domingo (25), no segundo turno, motivado pelo desejo de contribuir para o futuro do país e das próximas gerações.

O eleitor afirma que votar é uma forma de buscar melhorias que beneficiem toda a população, e não apenas interesses individuais. “Eu quero a melhoria do país, não só para uma pessoa, eu quero melhorias de um modo geral, para todo mundo”, afirma. Na avaliação dele, porém, nem todos vão às urnas com essa mesma preocupação: “Tem gente aí que só tá votando com interesse próprio, com ganância”.

Aos 98 anos, ele reforça que pretende continuar exercendo o direito ao voto enquanto tiver condições de fazê-lo: “Se der para votar, eu vou votar! Eu só não quero ver o sofrimento do povo”.  

Um exemplo para as novas gerações

Para o neto Gabriel, de 28 anos, a disposição do avô para continuar votando vai além da participação eleitoral. Ele explica que o avô nasceu em 1928, 70 anos antes dele, e presenciou todos os eventos mais importantes da história brasileira no século passado, sem nunca deixar de acreditar na diferença que participar da política pode fazer.

“Ele está votando desde a Era Vargas e já perdeu o direito de votar algumas vezes ao longo da vida. Meu avô terminou, no máximo, o fundamental, o que seria equivalente ao ensino médio hoje ele nem fez. Mas, mesmo sem acesso à educação formal, ele sempre foi uma pessoa que pensava na vida dele, dos próximos, dos seus filhos e dos netos depois que vieram”, explica. 

Ele acredita que o avô enxerga na política uma maneira de pensar no bem comum e reconhecer que as conquistas individuais também dependem da coletividade.

“Acho que a relação dele com a política é muito nesse sentido, de uma pessoa que viveu e vive a vida toda imersa num contexto social de muitas carências, mas também de muita produção de vida. E acho que ele vê no sistema democrático a possibilidade de votar uma representação, uma materialização disso”, complementa.

A ida às urnas se tornou, assim, um momento especial para a família. Gabriel conta que os parentes costumam se organizar para acompanhar Carlito nas eleições. 

“Ele dá o maior show lá no dia, na urna, cumprimenta todo mundo, fala com todo mundo. É uma atração lá na sessão. Todo mundo quer falar com ele, tirar fotos. Meus amigos quando encontro com ele, querem tirar fotos. Hoje, ainda mais, acho que votar para ele, a relação dele com a política, é celebrar a própria vida também”, compartilha.

No próximo domingo, a programação da família já está definida: depois de votar, haverá um almoço na casa de Carlito e da esposa, onde a família assistirá reunida à apuração dos votos.

Carlito afirma que já tomou uma decisão para o segundo turno. “Para presidente é Lula. Porque ele ajudou o país, ele tem moral para governar.” 

Esperança no futuro

Ao falar sobre a importância de participar das eleições, Carlito pensa nos netos e nos jovens que estão começando a construir suas próprias trajetórias. “Eu tenho que votar pelo futuro de vocês que estão começando, né? Uma garotada boa”.

Essa postura também influencia a maneira como o neto Gabriel enxerga o futuro. Para ele, conviver com alguém que, aos 98 anos, mantém a disposição de participar da vida política é um incentivo para não abandonar a esperança, mesmo diante das dificuldades.

“A postura dele em relação à política e à vida me norteia, e acho que a minha família como um todo. Porque eu não me sinto no direito de ser pessimista, assim, em relação à vida e ao futuro. Como eu, com 28 anos, vou aceitar me ver desesperançoso e desesperado, se do meu lado, eu tenho alguém com 98 anos que não está assim e nunca esteve? Então eu me sinto na obrigação de tentar ao máximo me aproximar disso”, afirma Gabriel.

Votos que fazem a diferença

A disposição de Carlito para continuar votando ocorre em um cenário de aumento da participação eleitoral entre pessoas com 70 anos ou mais. O número de eleitores com mais de 70 anos que votou no primeiro turno das eleições de 2026 aumentou 43% em relação a 2022. A informação é de uma análise de microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), realizada pelo Movimento Voto 70+ em conjunto com o centro de pesquisa Data8, divulgada pela Agência Brasil.

Na prática, o número de eleitores 70+ que compareceram às urnas no dia 4 de outubro de 2026 foi de 8,77 milhões, entre os 17,25 milhões que estavam aptos para votar. Desta forma, os idosos com mais de 70 anos contribuíram com 2,64 milhões de votos a mais em 2026, o que representa mais que os 2,2 milhões de eleitores de Brasília, por exemplo.

Em contrapartida, entre os menores de 70 anos, o número de votantes caiu de 117,59 milhões em 2022 para 116,51 milhões neste ano, em um recuo de 1,07 milhão.

Os dados mostram o crescimento da participação de pessoas mais velhas no processo eleitoral e de histórias como a de Carito, que faz questão de participar da decisão nas urnas. 

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Feito no Espírito Santo.