“Quando a gente sai, eu sinto um ar de curiosidade no público”, destacou o cantor André Prando ao falar sobre a experiência de se apresentar fora do Espírito Santo. Segundo convidado do VIXFeed Entrevista, o artista conversou sobre os próximos projetos, a construção de sua identidade musical e os desafios de desenvolver uma carreira no Espírito Santo e, ao mesmo tempo, conquistar espaço no cenário nacional.
Com mais de 100 mil ouvintes mensais em plataformas como o Spotify, Prando tem na discografia trabalhos como “Estranho Sutil”, “Voador” e “Iririu”. Nascido e criado em Vitória, ele carrega o Espírito Santo em sua obra e trajetória, seja por meio de tributos a nomes importantes da música capixaba, como Sérgio Sampaio, ou pelas parcerias com artistas da cena local.
“É realmente minha casa, minha base, né? Então, basicamente tudo que eu aprendi, eu aprendi aqui. E estando aqui, construindo aqui, eu pude sair e aprender fora também, óbvio”, comenta.
Ao longo da carreira, André também passou a construir um público em outras cidades brasileiras. Para ele, uma das partes mais marcantes desse processo é perceber que pessoas que já acompanharam seus shows continuam presentes, ao mesmo tempo em que novos ouvintes chegam.
“Em tantas cidades que eu já pude circular, eu pude ir construindo algum público. É ‘massa’ quando eu volto, perceber pessoas que eu já vi em shows ali e perceber pessoas que estão indo pela primeira vez”, conta.
E a próxima apresentação fora do Espírito Santo já tem data marcada. Neste sábado (29), Prando volta a um dos palcos mais emblemáticos da música brasileira, o Circo Voador, no Rio de Janeiro, para participar mais uma vez do projeto Baú do Raul. A edição celebra os 50 anos do álbum “Há 10 Mil Anos Atrás”, um dos trabalhos marcantes da trajetória de Raul Seixas, artista que é uma das referências de Prando.
“Geralmente, as noites lá são muito aguardadas, então o público vibra muito. A sensação que a gente tem como artista de pisar naquele palco sagrado e sentir essa responsabilidade, acho que as pessoas que vão lá curtir também sentem isso. Sentem que é um ‘rolê’ diferente, uma festa diferente, sabe?”, comenta.
Para André, uma das características que tornam a obra de Raul Seixas tão marcante é justamente a possibilidade de encontrar novas camadas nas músicas a cada escuta. “É um artista com muita profundidade na letra, que trazia filosofia para a letra, que trazia o cotidiano para a letra”, destaca.
Apesar de reconhecer que tem construído uma carreira sólida e encontrado oportunidades no Espírito Santo, Prando também aponta dificuldades para quem atua na cena musical capixaba. Segundo ele, a falta de continuidade de casas, projetos e iniciativas é um dos obstáculos para a consolidação desse cenário.
“Eu costumo dizer que o que a gente tenta chamar de cena aqui em Vitória, no Espírito Santo, é muito inconstante. Perdi a conta de quantas casas e projetos maneiros pintavam e depois tinham que fechar ou tinham que acabar porque não tinha como sustentar”, afirma.
“Às vezes falta incentivo, às vezes falta verba, às vezes falta uma constância do público. Então, são várias inconstâncias, né?”, completa.
Para o cantor, porém, essas dificuldades não são exclusivas do Espírito Santo. A diferença está na proximidade que ele tem com a própria cidade e com a cena em que está inserido. “Mas que não são só daqui, não, sabe? Isso tem em qualquer lugar, mas como eu moro aqui e conheço bem as entranhas da minha própria cidade, eu percebo essa dificuldade, sim”, explica.
O sucesso de Prando Sinfônico
Um dos momentos mais marcantes da carreira recente de André foi a realização do espetáculo Prando Sinfônico, ao lado da Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo (Oses). As duas apresentações, realizadas nos dias 12 e 13 de agosto, tiveram ingressos esgotados.
No espetáculo, o cantor apresentou um repertório inteiramente autoral acompanhado pela orquestra, em um passeio por diferentes momentos de sua discografia, com músicas de todos os seus álbuns em versões sinfônicas.
Para André, a experiência representou uma espécie de legitimação de mais de 15 anos de trajetória musical. “É emocionante demais e eu espero continuar não tendo palavras para explicar por um bom tempo, porque é uma experiência muito fora da curva”, destaca.
Depois de meses de preparação, ouvir suas próprias canções ganharem novos arranjos e serem executadas pela orquestra foi, segundo o artista, uma experiência tão intensa que ele próprio acabou se tornando espectador do espetáculo.
“Se você vir os registros, eu estou sempre rindo. Tinha hora que eu fazia algo que não é comum, que é virar as costas para o público, mas é porque eu estava olhando a orquestra, viajando. Então, foi um prazer imenso. Eu estava me impressionando junto com o público, sabe? Estava encantado mesmo”, conta.
Identidade musical
Na entrevista, André também falou sobre as influências que ajudaram a formar sua identidade musical. O artista define seu trabalho como Música Popular Brasileira, mas reconhece a forte presença do rock e da cultura psicodélica em sua trajetória.
Mais do que permanecer associado a uma única sonoridade ou fase, Prando diz que prefere enxergar sua música como um processo contínuo de transformação.
“Eu sinto que eu mudei a cada álbum. E aí, eu percebo que tem gente que acompanha essa lógica, que vai indo junto e gosta das novidades, e tem gente que fica apegado ao que chamam de Prando do Velho Testamento. ‘Saudade do seu cabelão, saudade da barba, de quando você se vestia meio hippie, não sei o quê’. Mas são fases diferentes. Eu me interesso muito mais pela constante transformação”, afirma.
O bate-papo completo com André Prando está disponível nos perfis do VIXFeed no YouTube, em vídeo, e no Spotify, em áudio. O VIXFeed Entrevista recebe semanalmente convidados ligados à cultura, à economia criativa e à produção de ideias no Espírito Santo.

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