Atualizado em 07/08/2026 – 23:30
A decisão do juiz Marcos Pereira Sanches, da Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória, que concedeu proteção judicial ao Grupo Apex Partners, começa com uma qualificação que ocupa quase toda a peça: a relação nominal das sociedades que pediram a medida. São 172 empresas, com CNPJ individualizado, apresentadas na petição como integrantes de um único grupo econômico, sob controle societário comum e gestão integrada.
A lista é o retrato mais completo já tornado público do alcance da Apex na economia capixaba. E exige uma leitura cuidadosa, porque nem todos os nomes significam a mesma coisa.
Duas categorias diferentes
A maior parte dos nomes é de veículos de investimento da própria Apex, identificáveis por expressões como “Participações”, “VC”, “VCPE” ou “INV RE”. São holdings criadas pelo grupo para abrigar fatias em outros negócios.
Aparecem nessa condição, por exemplo, a BRM Apex Inv VCPE Rhino Participações, a BRM Apex Inv VCPE Univale Participações, a BRM Apex Inv VCPE Natufert Participações, a BRM Apex Inv VCPE Great Schools Participações, a VC Mydoor Participações, a VC Zaitt Participações, a VC Singu Participações, a VC Brota Participações, a VC Shipp Participações, a VC Spark Participações, a VC Conta Café Participações, a VC Maya Tec Saúde Participações e a BRM Apex VCPE Zé Coxinha Participações.
Nesses casos, quem está sob a proteção judicial é a holding da Apex que detém a participação, e não a empresa investida. A Rhino Securitizadora, por exemplo, não figura no polo ativo. Quem figura é o veículo da Apex que investiu nela.
A segunda categoria é diferente e mais significativa: sociedades operacionais que aparecem em nome próprio. É o caso da Fucape Pesquisa e Ensino S/A, mantenedora da Fucape Business School, inscrita no CNPJ 06.105.333/0001-61.
Também nessa condição estão a Stark Investment Banking, a Futura Consultoria e Assessoria, a Futura Pesquisa, a Potenza Assessor de Investimento, a Propósito Capital Assessores de Investimentos, as três empresas do grupo Redoma, a AFS Alimentação, a AFS Alimentação Vitória, a Trem Alimentos, a CMSM Clínica Médica Saúde Melhor e a DXA Safira.
A Fucape
Em agosto de 2025, o fundo ABMPar, comandado pela Apex Partners, assumiu o controle acionário da Fucape Business School, comprando os 40,3 por cento que pertenciam ao professor Aridelmo Teixeira, cofundador da instituição e ex-secretário de Governo de Vitória, e somando-os aos 10 por cento que já detinha desde 2020. O professor Valcemiro Nossa permaneceu com 40,3 por cento e outros três professores dividem os 9,4 por cento restantes.
A mantenedora da escola de negócios não aparece apenas como investida do grupo. Ela integra o polo ativo da ação, na condição de requerente da medida de proteção.
O VIXFeed procurou a Fucape para saber quais os impactos dos fatos sobre a instituição, se os executivos afastados ocupavam cargos de governança e se há risco para a operação acadêmica, o corpo docente e os alunos. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto.
A vertical de comunicação
A lista inclui a BRM Apex Comunicação, a BRM Apex Folha Business, a Media Business I e a Media Business II. O Folha Business é a operação de conteúdo de negócios do grupo, mantida em parceria com a Rede Vitória, afiliada da Record no Espírito Santo, e responsável por uma série de encontros empresariais no estado.
O braço imobiliário
O maior contingente da lista é formado por sociedades de propósito específico do setor imobiliário, com nomes que remetem a empreendimentos e endereços conhecidos: Praia do Canto, Jardim Camburi, Manguinhos, Enseada, Pedra Azul, Fazenda Arace, Fazenda Atalaia, Marina Leblon, Moma Residence, Younivers, Solano, The Only & Grafik, Vizzo, Dolce Vitta, Interlagos, além de operações fora do estado, em Londrina e Cascavel.
Esse ponto tem uma ressalva relevante e favorável aos compradores de imóveis. Tanto a petição quanto a decisão excluem expressamente do alcance da medida os patrimônios de afetação das SPEs de incorporação imobiliária, regime legal que torna o patrimônio de cada empreendimento incomunicável e o protege das obrigações gerais do incorporador. O juiz determinou que o grupo especifique, em 48 horas, quais sociedades estão nessa condição, já que o anexo com essa relação não foi juntado ao processo.
As aquisições recentes
A lista permite acompanhar a trajetória de expansão do grupo. Aparecem a Stark Investment Banking, adquirida em 2025, a Redoma Capital, de São Paulo, a Propósito Capital, do Rio Grande do Sul, e a Potenza Investimentos, também paulista, todas incorporadas no mesmo ano. Estão ali ainda a Contea Capital, a Carbyne, a Futura e as gestoras regionais Apex RS, Apex SC, Apex SP e Apex Sul.
O que dizem as empresas procuradas
Rhino Grupo. A securitizadora afirmou que presta serviços de estruturação e emissão de operações de securitização para a Apex Partners e que dessa relação decorre sua posição como credora. Disse que acompanha os desdobramentos e adotará as medidas cabíveis para a recuperação dos valores e a proteção dos titulares dos títulos. Acrescentou que suas demais operações seguem segregadas dessa relação, em pleno funcionamento, e que atua há mais de cinco anos no setor, com autorização e fiscalização da CVM e contas auditadas por auditoria externa independente. A empresa não integra o polo ativo da ação. O que consta da lista é um veículo de participação da Apex ligado a ela.
Shopping Vitória. A administração informou que o Fundo de Investimento Imobiliário Apex Malls detém participação minoritária no empreendimento desde junho de 2023, que o fundo é constituído exclusivamente com recursos de cotistas e não tem cotas adquiridas pela Apex, responsável apenas pela gestão. Destacou que não possui qualquer ingerência sobre o fundo e que a operação segue sob responsabilidade da Nova Cidade Shopping Centers, sem alteração diante dos fatos atuais. Nem o Shopping Vitória nem a Nova Cidade figuram entre as requerentes.
Fucape. Procurada, não respondeu até a publicação.
Apex Partners. Procurada sobre a petição e sobre a decisão, não respondeu até a publicação. Em comunicado divulgado na quinta-feira (6), a empresa havia informado que apurações preliminares identificaram inconsistências financeiras, que Fernando Antonio Kulnig Cinelli foi afastado da presidência e Eduardo Siqueira da diretoria financeira, e que uma auditoria externa seria contratada.
O VIXFeed segue à disposição de todas as empresas e pessoas citadas nesta reportagem para receber posicionamentos, que serão publicados na íntegra e incorporados ao texto.
O que vem agora
O juiz nomeou a Laspro Consultores, representada por Oreste Nestor de Souza Laspro, para elaborar em 20 dias o laudo de constatação prévia das reais condições de funcionamento e organização das requerentes. Justificou a medida pelo grande número de sociedades no polo ativo, com os mais variados objetos sociais e estrutura complexa.
O grupo tem 30 dias corridos improrrogáveis para apresentar o pedido de recuperação judicial, sob pena de perda automática da eficácia da proteção concedida.
O magistrado também negou o pedido de segredo de justiça formulado na petição e determinou que o cartório torne o processo público, registrando que publicidade e transparência são princípios basilares dos procedimentos recuperacionais e falimentares.

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