Atualizado em 06/08/2026 – 15:53
Estou tentando usar menos rede social, e esta escolha me leva a encarar meu vício. Foi a mesma coisa quando parei de fumar. Precisei encarar e tomar coragem. Não dá pra parar uma situação que não te faz bem sem reparar que lugar exato ela ocupa e qual meu modo de usar.
Há uma parte muito vexatória no uso de redes que é gastar tempo do meu dia olhando se as pessoas estão me olhando, como se isso tivesse qualquer coisa a ver comigo. Como se cada um não olhasse para o que quer, e eu tivesse um controle sobre o interesse coletivo.
Ao contrário do que pregam os crentes em algoritmo e seus cursos caríssimos, ninguém pode controlar o que o outro gosta. Nem o pessoal bilionário consegue ser amado por toda gente mesmo gastando rios de dinheiro para isso.
Li (provavelmente numa rede social) que ninguém nunca morre dizendo que devia ter ficado mais tempo rolando o feed. Imagina como ficaria a música dos titãs: devia ter postado mais/ ter clicado mais/ ter visto o instantes. Devia ter rolado mais/ comentado mais/ discutido mais pelo petêee. Queria ter só rolado/ o feed por mais um tempão/ a cada um cabe a alegria/ que o story traz pro coração.
E o refrão: o feed vai me proteger enquanto eu andar distraída/ o feed vai me proteger enquanto eu andar distraída/ o feed vai me proteger/ enquanto eu andar…
Percebi que, como era com o cigarro, eu boto a rede social no lugar do tédio. Agora… que aversão a tédio é essa que não aguenta dois minutos? Em que momento resolvi que não poderia nunca ter uma pausa? Ninguém pediu isso.
Em relação a cigarro eu sabia de muitos estudos sobre as dependências física, psíquica, química, sentimental. Ainda hoje paro os dedos da mesma maneira que parava, segurando um cigarro imaginário que deixou de ocupar os dedos há mais de quatro anos.
Que urgência é essa de não ter nunca um intervalo? Que urgência é essa de se pautar pela vida dos outros? A dopamina depende de quantos likes?
O Instagram é um vício relativamente recente, entrou no lugar do facebook, que entrou no lugar do twitter, que entrou no lugar Orkut, que antes não fazia a menor falta. A gente tinha nossos chats, msns, icqs e afins, mas a internet ainda era discada.
A gente não tinha tanta comunicação na mão. A gente tinha espaços em branco pra encarar a própria impotência diante de um monte de coisa. Impotência é ruim, mas existe.
Estou falando de mim. Eu tenho a mania de ir pra rede social quando não tenho resposta para alguma tarefa simples. Eu desaprendi a pausar. E agora?

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