Atualizado em 10/07/2026 – 16:03
A ansiedade do retorno é muito parecida com a da vinda. A diferença é que contávamos os dias e arrumávamos as malas sem saber exatamente se o visto seria concedido, se a viagem realmente iria acontecer naquela data. Fiz bate e volta ao RJ nas duas semanas que antecederam a viagem. Na primeira, disseram que os nossos vistos estavam sob avaliação, mas que não havia previsão de quando sairiam. Na segunda, eu não marquei hora. Eu só cheguei e disse que precisava do visto. Não sei o que houve, mas, misteriosamente, ele havia sido expedido. Era dia dois de fevereiro, dia de Iemanjá. Nunca vou esquecer, porque, ao sair do consulado, considerei levar flores ao mar, mas eu não conheço o RJ e achei arriscado sair pela cidade com o passaporte.
Naquela noite, eu voltava pra casa com o visto sem saber se comemorava ou não. Lógico que comemorava! Mas é que a minha viagem estava começando um dia antes, na poltrona da ÁguiaFlex, em direção ao ES. Do ES, pegar a criança e o avião, ir de novo para o RJ, de lá para Lisboa, depois para Madrid e, então, um trem para Salamanca. Nossos corpos só não deram um piripaque na contagem regressiva caótica de uma viagem que tinha tudo praacontecer, mas podia não acontecer na data prevista, porque os estatelamos no sol por todo o verão, em despedidas constantes que se tornaram pequenos rituais com as pessoas e as paisagens que amamos.
A viagem aconteceu e o choque térmico de uma chegada em pleno inverno europeu foi sentido na pele, que doía, depois de alguns dias. Aprendemos a nos vestir com o passar do tempo, e a evitar ruas que ventam forte ao longo do caminho, que depois se tornou o proteger-se do sol nasondas de calor. Eu diria que o clima “extremo” pra duas pessoas tropicais foi a maior dificuldade da nossa adaptação, tirando a distância da aldeia que nos cria, e isso também não é menos tropical. Aqui é seco no inverno e agora no verão, a chuva seca antes de chegar no chão.
Se alguém me perguntasse hoje o que mais pesa numa mudança dessas, eu colocaria o clima no topo da lista. Ele muda a comida, o humor, a rotina, a roupa, o jeito de ocupar a cidade. A verdade é que o clima quase foi o choque mais emblemático, não fosse o dia em que a minha filha presenciou o topless de duas senhoras na piscina municipal. Aquilo gerou um assunto sobre o modo de lidar com a nudez entre os europeus por semanas. Lógico que ela não fazia esse uso dos termos, mas, no final, concluímos que o peitinho é só um peitinho para pessoas de qualquer gênero.
Agora o nosso retorno se aproxima, e é impossível mensurar o aprendizado obtido até aqui. No que diz respeito à pesquisa, sugiro o processo de migrar a todos os pesquisadores que tenham a oportunidade de fazê-lo. A pesquisa muda quando quem pesquisa muda de lugar. Sair da língua materna, do conforto e das referências conhecidas que nos organizam transforma, inevitavelmente, a forma como observamos o mundo. E essa transformação atravessa a investigação.
No que diz respeito aos aprendizados imensuráveis, subjetivos e nem sempre delicados, o tempo se torna, mais uma vez, o grande protagonista da moral da história. Uma viagem que começa com uma contagem regressiva caótica termina com uma contagem regressiva esperada, ansiada e gestada em dois fusos diferentes. Ainda não sei como me despeço da vista da igreja da minha janela que abriga também o som do sino, que bate uma badalada a mais a cada hora e meia badalada em cada meia. Nem do céu de Salamanca ou das Palmeras de Lotus da pastelería Gil.
Tampouco sei como dizer adeus ao passarinho que, religiosamente, canta pra nossa janela às 6h28 da manhã, quando me levanto pra fechar a persiana. Se apareço, ele deixa de cantar. Nem sempre o vejo porque acordo míope. Ele me vê, e eu não preciso dizer nada. Isso eu notei outro dia. Preciso apenas me virar pra ele, numa espécie de saudação com a postura. Ao longo do dia, ele também aparece. Comecei a saudá-lo como quem recebe uma mensagem, um sinal, uma validação. Ele pia como quem diz que as coisas seguem no rumo certo. Não pio de volta, mas acolho como quem escolhe os próprios presságios.

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