É certo que não entendo nada de futebol, e também não tenho a intenção de fazê-lo. Gosto da Copa, no entanto. Abraçar as pessoas depois de um gol é engraçado, gritar também, e vuvuzela é o melhor pior barulho.
O primeiro jogo, assisto na sede de um grupo de teatro (a Má Companhia, no centro de Vitória), ao lado de pessoas artísticas. Fico ali olhando a bola rolando, os jogadores correndo, entendendo porque o maluco do goleiro estava quase na cara do outro gol ao invés de defender o dele quando o marroquino enfiou a bola na rede.
Volta uma memória. Meu irmão José quando era pequeno chorava sempre que o goleiro perdia. Certamente o primeiro gol do Marrocos deixaria meu irmão em prantos aos dois anos de idade. Abraço meu irmão imaginário que por sorte só viu esta cena já adulto. Não sofreu de Marrocos.
A colega mais empolgada diz que o goleiro brasileiro ganha muito bem e poderia tratar da própria pele. Na internet dizem que goleiro bom é goleiro feio. Eu estou esperando dar o intervalo porque vai ter samba.
Fizemos um combinado aqui entre os presentes. Como ninguém trouxe uma vuvuzela, eu serei a vuvuzela. Onnã me diz “Aline, vuvuzela!” E eu ponho meus pulmões a serviço de um sonoro e gordo Foooooon.
O jogo continua, e já estamos todas pedindo a Marta. Cadê a Martaaa. Não tem Marta nem Ronaldinho Gaúcho.
O goleiro do Marrocos foi bem na defesa do quase gol do Paquetá. Meu irmão José imaginário fica feliz nessa hora, então penso que o poderia ver jogo com meus sobrinhos porque me encantaria do encantamento deles, mas logo gosto do presente novamente. A cantora Sthelô agora é outra vuvuzela que se une a mim e Onnã.
A televisão parou de funcionar alguns minutos no segundo tempo. Uma colega começa a assistir no celular. Confiamos em como ela vibra. Há um senso de comunidade. Temos fé na internet voltar a funcionar direito, na televisão, e na dona da casa.
Enquanto isso não acontece, fazemos a coisa certa. Em coro, cantamos boate azul. De uma forma ou de outra, estamos juntes e somos certamente as vuvuzelas mais afinadas da américa latina.
Eu não gosto de futebol, é verdade. Mas eu gosto de estar com as pessoas fazendo coisas felizes, sentir a comunidade, fazer figa. Eu gosto de copa. Eu gosto do samba do intervalo, eu gosto de ser uma vuvuzela de garganta.
Agora, o leitor, leitora ou leitore se engana se pensa que nosso grupo era o mais aleatório do primeiro jogo. Quando acabou a partida, andei pelas ruas do centro e descobri que muitas pessoas estavam assistindo a um espetáculo de dança.
E também encontrei um grupo de pessoas góticas vestidas de vampiro esperando acabar um casamento pra fazer um ensaio fotográfico gótico na Catedral. Tinha até uma caveira no ombro de uma delas. Me disseram que se chama Alejandro.

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