Atualizado em 10/04/2026 – 15:10
Primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta indígena Guarani no Espírito Santo, Tatatxi Ogwata Porã Djawe – A caminhada sagrada de Tatatxi Ywarete terá uma sessão especial gratuita nesta sexta-feira (10), às 19 horas, no Cine Metrópolis, em Vitória. A obra revive a jornada de uma importante líder do povo Guarani Mbya em busca da Terra Sem Males, um espaço espiritual e sagrado na cultura de seu povo. Na ocasião, o público poderá participar de um debate com a equipe do filme.
Com direção de Wera Djekupe (Marcelo Guarani), a obra afirma o cinema como espaço para resguardar a memória dos povos. Tatatxi Ywarete, bisavó do diretor, foi curandeira, parteira e guia espiritual, reconhecida por sua atuação comunitária. Para o povo Guarani, ela permanece viva na memória coletiva como uma grande liderança espiritual que dedicou sua vida a praticar o bem e fortalecer a união entre seu povo.
Totalmente falado em língua guarani, o filme tem legendas em português, inglês e espanhol, além de versões acessíveis em libras, audiodescrição e legenda descritiva.
“O filme foi feito com muito orgulho, para que nossos jovens Guarani, para que nossas crianças que estão aí crescendo, nunca se esqueçam porque estamos aqui. Para que a memória não se perca, que saibam quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos”, comenta o diretor.
Tatatxi Ywarete guiou um grupo Guarani partindo do Rio Grande do Sul, numa caminhada iniciada na década de 1940 e que durou 35 anos. A curandeira teve a visão da aldeia revelada, percorrendo diversos estados brasileiros até chegar ao Espírito Santo. No caminho, fundou aldeias Guarani que existem até hoje em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro, até se estabelecer em Aracruz, no litoral norte capixaba. “Nós começamos a gravar desde o início da caminhada, paramos nas aldeias, onde ela fazia o fogo sagrado e ficava por um tempo, até seguir a caminhada”, conta Wera Djekupe.
Processo produtivo
Filmado entre julho de 2024 e fevereiro de 2025, o filme foi finalizado no final de 2025, contando com recursos da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, por meio de seleção em edital da Secretaria de Cultura do Espírito Santo (Secult-ES).
O filme teve produção da Interferências Filmes, empresa que possui parceria de longa data com os Guarani no Espírito Santo, tendo produzido quatro filmes de curta-metragem e uma série, sempre mesclando profissionais indígenas e não indígenas. O projeto do longa-metragem incluiu a realização de oficinas de fotografia e som, na qual participaram cerca de 20 indígenas, em sua maioria jovens, que passaram a fazer parte da equipe de produção do filme.
Para contar a história, o diretor e a co-roteirista Fernanda Keretxu recorreram às memórias daqueles que acompanharam Tatatxi Ywarete na caminhada. Foram diversos os encontros com os guardiões desta memória, como Wera Kwaray (Toninho Guarani), Tupã Kwaray (Jonas Ernesto da Silva), Keretxu Endy (Marilza da Silva), Yry (Ivanilda Carvalho dos Santos), Tatatxī Ywarete (Joana Carvalho da Silva), Djatxuka (Tereza da Silva de Oliveira) e Wera Kambu (Mario Cézar Carvalho).
O longa conta com as fotografias de Rogério Medeiros, que acompanhou o grupo Guarani desde antes de sua chegada ao Espírito Santo até os anos 2010. Contribuíram também nesta recuperação de memórias e imagens a antropóloga Celeste Ciccarone, que escreveu uma tese de doutorado sobre a líder Guarani, e Maria Inês Ladeira, antropóloga que escreveu o livro O Caminhar sob a Luz, que tem um capítulo sobre a importância de Tatatxi Ywarete para a comunidade Guarani do Brasil.
Experiências
O produtor Ricardo Sá considera que a realização do documentário foi uma experiência enriquecedora: “Trouxe um grande crescimento espiritual e uma grande alegria e motivação profissional. Poder apresentar a jornada de Tatatxī Ywarete para o público local, nacional e internacional é algo que me estimula profundamente, apesar de todos os desafios que isto representou ou que representará. Torço que mais pessoas se interessem por esta história e por este projeto, para que possamos levar este filme para muitos lugares, semeando a filosofia de Tatatxi”.
Para a co-roteirista Fernanda Keretxu, participar do filme foi uma oportunidade para aprofundar e aprender não só sobre a grande líder espiritual do povo Guarani, mas também dos processos que envolvem o mundo do audiovisual. “Acredito que esse filme será uma importante ferramenta de resistência pro povo Guarani. Para mim, foi uma grande lição de vida”, relata.
Distribuição
Depois da sessão especial do longa-metragem, o plano de distribuição da obra prevê circulação por festivais de cinema nacionais e internacionais, exibição em cinemas, TVs, plataformas de streaming, projetos educativos e outros espaços.
Além da produção da Interferências Filmes, a obra contou com parceria da Associação Ka’agwi Porã e com apoio da Associação Indígena Tupinikim e Guarani (AITG), do Espírito Santo, e das aldeias Igwá Porã (SC), Tekoa Koenju (RS), Rio Silveira (SP) e Paraty Mirim (RJ). Também contribuíram a Associação Comunitária Indígena Pataxó Thyumdayba (MG), a Fase-ES, a Mosaico Fotografia, o Núcleo de Produção Digital do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) – campus Guarapari e a Coordenação Regional MG/ES da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O filme teve ainda apoio institucional da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional no Rio Grande do Sul (Iphan/RS), do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e da Funai.

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