Atualizado em 10/03/2026 – 08:10
É comum, quando se pensa em escravidão no Brasil, vir à mente a imagem do homem ou da mulher negra, via de regra já adulto ou adulta, em situação de servidão e maus tratos. Mas e as crianças negras do período escravista? A historiadora capixaba Silvana Santus resolveu ir a fundo sobre o tema: como viviam, como eram vistas pela sociedade e como eram tratadas politicamente, transformando no livro “Sobre a Vida Delas”.
O lançamento do livro será no Museu Capixaba do Negro (Mucane), em Vitória, no próximo dia 19 de março, a partir das 18 horas. No evento também serão expostas 14 fotos e gravuras do período escravista, que retratam o uso da mão de obra infantil escravizada, entre 1870 e 1888. As imagens são de domínio público, parte delas pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Sales/SP. A publicação traz 269 páginas de um vasto estudo que foi realizado em cinco anos de pesquisa.
“Neste primeiro momento de pesquisa da minha tese de doutorado, que resultou no livro, foi analisado o período entre 1869 até a abolição, em 1888, no Espírito Santo. O estudo surgiu a partir do achado de documentos, datados de dois anos antes da Lei do Ventre Livre, no qual se discutia a necessidade de se educar as meninas escravizadas, antes de serem libertadas. Os parlamentares da época determinaram que fosse destinado um valor para libertar meninas de 5 a 10 anos de idade, que deveriam ser educadas para que causassem menos problemas para a sociedade. Todo estudo parte deste ponto e de como essas crianças eram vistas como ameaça à sociedade e aos bons costumes da época”, diz Silvana.
A lei provincial N0 25/1869, que chegou a ser aprovada, no entanto, não mudou a realidade dessas meninas. Segundo o estudo, foram menos de 50 meninas contempladas, número irrisório para a população negra à época. A lei “não pegou”. Em contraponto a essa realidade, as histórias de duas meninas escravizadas, chamam atenção pela ousadia de crianças, que decidem recorrer à justiça, denunciando seus donos por abuso e violência excessiva. Como imaginar que escravizadas com idades de 12 e 14 anos, seriam capazes desse tipo de ação?
“As crianças assim como os adultos, também eram comercializadas, vendidas, trocadas ou alugadas por um valor, na maioria das vezes, menor do que era pago pelo escravizado adulto. E elas trabalhavam nas propriedades, no campo ou dentro das casas, desempenhando as mesmas tarefas que um adulto. Estavam dentro desse contexto de escravidão, vivendo uma não infância e um processo de invisibilidade, exploração e apagamento que encontra reflexo nos dias atuais”, diz.
E exemplifica: “Quando uma mulher branca coloca uma criança negra dentro de um elevador, sozinha, abandonada à própria sorte, revela uma atitude desumana, e também que essa criança negra não tem importância ou tem menos valor, prática herdada desse passado escravista” completa, remetendo ao caso da morte do menino negro Miguel Otávio Santana da Silva, de apenas 5 anos, que caiu do 9º andar de um edifício de luxo, no Recife, depois de ser deixado pela patroa de sua mãe dentro de um elevador, em 2020.
Assim como o caso Miguel, as desigualdades atuais revelam a perpetuação dessa política de exclusão. Dados coletados pelo IBGE, através da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios Contínua – PNDA, de 2023, mostram que o número de pretos e pardos analfabetos é três vezes maior que entre as pessoas brancas. Seguindo a linha das desigualdades, 71% dos jovens pretos e pardos, com idades entre 18 e 24 anos, não concluíram o ensino médio. Os dados da evasão escolar são maiores entre os pretos e pardos, e os jovens menores de 13 anos que precisaram interromper seus estudos para trabalharem também é maior entre os negros.
“A análise de índices tão desiguais nos leva a crer que, no Brasil, pretos e pardos permanecem por menos tempo ou nunca frequentaram a escola. Ademais, a ausência histórica de políticas públicas eficientes capazes de garantir a permanência de crianças e jovens pobres, pretos e pardos nas escolas, com o direito de acessarem um ensino de qualidade que permita que sejam protagonistas de suas escolhas, continua acontecendo”, destaca Silvana.
Segundo ela, um dos objetivos ao realizar esse resgate histórico é justamente contribuir para um debate mais amplo que inclui a criança negra. “Minha proposta é voltarmos nosso olhar para o lugar que a criança preta vem ocupando na sociedade, a partir de reflexões que passam por proposições de políticas públicas mais justas e inclusivas e até pela reformulação dos currículos escolares, para que estes ajudem a transformar as estatísticas que colocam o negro, em especial a criança negra, em um lugar de invisibilidade e violências que lamentavelmente começam já na primeira infância, na educação infantil quando adentram o espaço escolar e são vitimadas pela violência do racismo.”, conclui a pesquisadora.
Sobre a autora
A doutora Silvana Santus é historiadora, palestrante, pesquisadora e professora universitária. Doutora em História Social e Política pela Universidade Salgado de Oliveira/ UNIVERSO – Niterói. Mestre em História das Relações Culturais. Especialista em ESG Inclusão e Diversidade; Especialista em História da África, do Negro no Brasil e dos Povos Indígenas; Especialista em Direitos Humanos e Relações Étnico-raciais e Integrante do LABSEA – Laboratório de Estudos das Sociedades Escravistas das Américas e da África.
Serviço
Lançamento do livro “Sobre a Vida Delas” e Exposição Fotográfica Itinerante
Autora: Silvana Santus, historiadora
Local: Museu Capixaba do Negro (MUCANE)
Endereço: Avenida República, 121 , Centro, Vitória/ES
Horário: 18 horas
Quando: 19 de março

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