Atualizado em 15/01/2026 – 16:08
Achei um arquivo antigo aqui no computador, um texto que fiz pra mim mesma dizendo o que eu esperava do amor. Em minha memória, eu esperava coisas lindíssimas e gostosas de viver. Ocorre que não foi isso que eu encontrei ao clicar no texto.
Abri o arquivo e achei ruim.
A Aline de dez anos atrás sonhava um amor difícil, cifrado. Era uma tabela de coisas a serem vividas que pareciam caber muito bem numa planilha de novela mexicana. Uma distância que dá saudade, um turbilhão, uma coisa frenemies.
Eu não sou frenemie de ninguém em 2026. Frenemie é quando seu friend (amigo) é também seu enemy (inimigo) e aí a gente passa de pessoas que se odeiam pra pessoas que se amam. Eu hein…
Sei lá por que um dia eu pensei que essas coisas eram vantajosas. Esses dias li um poema da Cristina Peri Rossi que dizia uma coisa bonita. “Passada a idade dos grandes amores (…)/ volte os olhos para os pequenos amores”.
Ela exemplifica, diz do amor do livreiro pelo cheiro de papel, da amiga dela por sua gata, do padeiro pelo pão… Cristina diz que esses amores não fazem tanto barulho, e que ela tem um amor pequeno para dar. Justifica que o amor pequeno permanece.
Ela cita ainda Tristão e Isolda, Romeu e Julieta… Aqueles casais todos que a gente aprendeu a admirar nas artes. Esse povo que morre arrebatado. Eu gosto de arrebatamento, mas uma vez fui chamada de arrebatinho e achei que aquilo era bom. “Aline, você é um arrebatinho, que é um arrebatamento com carinho”.
Eu até quero apoteose, se eu for carnaval. Uma apoteose alegre que talvez se construa com tempo e vivências conjuntas de pequenos amores. E aí sim um grande amor. Não acredito mais no cinema americano. Não acredito mais na Disney. Não acredito mais que o príncipe que mente vai me salvar no final.
Talvez eu esteja velha com trinta e sete anos. Mas tenho sonhos. Claro que sonho. E sonho grande com grandes viagens, com grandes passeios, com grandes orgasmos, com grandes brindes, com grandes banquetes, com grandes gargalhadas.
Mas eu não quero mais nenhuma complicação desnecessária para construir um amor. Eu quero carinho, eu quero cuidado, eu quero escuta, eu quero espaço. Se a gente se desentender, que a gente queira se enxergar e resolver. Que eu não precise engolir a mim mesma pra estar perto de ninguém.
Que vantagem tem?
Eu quero, sim, um amor-vantagem. E não vejo problema mais em querer que a vida me traga coisas boas. É uma ambição bacana. Eu quero abanar meu rabo, lamber e dar a pata, como dizia o Cazuza. Pois então, vida, me traga quem lata comigo e faça festinha.

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