Atualizado em 14/01/2026 – 12:36
Um projeto voltado ao fortalecimento da autonomia de mulheres ciganas vai começar a ser executado no acampamento de Campo Verde, em Cariacica, com ações de formação profissional, geração de renda e cuidado social por meio de oficinas de costura, cerâmica, mentoria e atendimentos psicológicos. A iniciativa “Autonomia Calin com mulheres ciganas tradicionais” vai atender 20 mulheres da etnia calon e seus filhos até o mês de maio.
Nesta sexta-feira (16), às 9h, Dia Nacional da Mulher Cigana, a equipe do instituto inicia as oficinas de costura criativa e mentoria de fortalecimento empreendedor. As aulas acontecerão posteriormente aos sábados de 8h às 11h, no Cmei Municipal Luiz Santiago Filho, que fica ao lado do acampamento, e conta com o apoio das secretarias municipais de Cariacica da Mulher e Direitos Humanos, e da Educação. A escolha do dia também homenageia Jordana Tereza Aristides, ativista cigana romi reconhecida por sua atuação na defesa da infância e da cultura cigana no Brasil.
As ações serão conduzidas por uma equipe multidisciplinar formada por educadoras, instrutores de arte, arteterapeutas e psicólogas com experiência em projetos comunitários e em contextos de povos tradicionais. O projeto é realizado pelo Instituto Casa Lilás, organização da sociedade civil selecionada pelo Edital da Rede Abraço 2025, do Governo do Estado do Espírito Santo. A proposta foi desenvolvida a partir de pesquisas acadêmicas sobre a realidade das comunidades ciganas no estado e da convivência direta com os territórios.
Segundo estudos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), conduzidos pela pesquisadora e jornalista Déborah Sathler, as mulheres ciganas enfrentam múltiplas formas de violência e invisibilidade, mas exercem papel central na preservação da cultura, da memória coletiva e das tradições nos acampamentos. “São elas que mantêm vivas as práticas culturais e os saberes ancestrais, mesmo diante de tentativas constantes de apagamento”, explica a coordenadora do projeto.
O Brasil é hoje o terceiro país do mundo com maior população cigana, atrás apenas da Romênia e dos Estados Unidos. Em 2024, o governo federal lançou o primeiro Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos. No Espírito Santo, cerca de 25 municípios possuem acampamentos ciganos da etnia calon, de acordo com a Associação Internacional Maylê Sara Kali.
Para Nilcelia de Jesus, coordenadora da Associação Movimento Étnico Cigano do Espírito Santo (AMEC-ES), o projeto supre uma lacuna histórica. “É raro termos iniciativas voltadas especificamente para mulheres ciganas. Além de dar visibilidade à causa, o projeto gera dados, fortalece a identidade e respeita a realidade do território”, afirma.
Moradora do acampamento de Cariacica, Ana Paula Soares, de 30 anos, mãe de três filhos, vê na iniciativa uma oportunidade concreta de mudança. “A gente precisa ser vista. Vamos receber máquinas de costura, produzir nossas roupas e bonecas ciganas e aprender coisas novas. Isso traz esperança para a comunidade”, conta.
Fundado em 2020, o Instituto Casa Lilás atua no fortalecimento de mulheres em situação de vulnerabilidade, com projetos que integram arte, saúde mental e educação. A organização já desenvolveu ações com mulheres operárias, profissionais da saúde e jovens de territórios periféricos da Grande Vitória.

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