O capixaba tem sotaque, sim. Quem garante é Gregorio Duvivier, em cartaz em Vitória com o monólogo "O Céu da Língua" até este sábado (7). "Tem um S mais mineiro, esse S que não chia, às vezes um cantar um pouco baiano, e o R de vocês é carioca", disse o ator ao VIXFeed.

Ele respondeu às perguntas da reportagem enquanto tomava café no Mangalô, na orla da Curva da Jurema. "É uma coisa que eu acho muito gostosa, que não tem no Rio: você tomar um cafezinho na orla", contou.

Na entrevista, Duvivier relembrou as outras vezes em que se apresentou na cidade, explicou de onde vem o "pocar" e encarou a pergunta mais perigosa que se pode fazer a um visitante no Espírito Santo: moqueca capixaba ou peixada baiana?

De volta a Vitória

Não é a primeira vez de Duvivier nos palcos capixabas. Ele já trouxe à cidade o "Portátil", em 2015, e o monólogo "Uma Noite na Lua". Há cerca de 20 anos, esteve aqui com o "Z.É. (Zenas Emprovisadas)", espetáculo de improviso que fazia com Marcelo Adnet, Fernando Caruso e Rafael Queiroga.

A poesia de todo dia

Agora ele volta com "O Céu da Língua", uma comédia sobre a poesia que aparece no dia a dia sem que a gente perceba. Formado em Letras pela PUC-Rio, Duvivier tira humor de reformas ortográficas que derrubam acentos, de gírias antigas que voltaram com novo sentido, como "irado" e "sinistro", e de metáforas que usamos sem pensar, como "batata da perna" e "céu da boca".

O texto é assinado por Duvivier e Luciana Paes, que estreou na direção teatral com esta montagem. Cofundadora da Cia. Hiato, ela já dividia o palco com ele nos improvisos do "Portátil". Em cena, o contrabaixista Pedro Aune cria a trilha ao vivo e a designer Theodora Duvivier, irmã do ator, opera as projeções. A cenografia é de Dina Salem Levy.

A peça estreou em Lisboa em 2024, chegou ao Brasil em fevereiro de 2025 e já foi vista por mais de 300 mil pessoas em dez países.

O espetáculo venceu as categorias de Melhor Espetáculo e Melhor Texto no Prêmio do Humor 2026 e rendeu a Duvivier o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Ator em 2025. Em abril deste ano, ele lançou o livro "Aos pés da letra", um desdobramento da peça. A temporada em Vitória é trazida pela WB Produções, que comemora 19 anos com o espetáculo.

Confira a entrevista

Gregorio, você já passou por Vitória com o "Portátil", do Porta dos Fundos, e com o monólogo "Uma Noite na Lua". Que lembrança guarda da cidade e do público capixaba? Vai aproveitar esses dias para explorar a cidade?

Claro, eu lembro bem. Vim algumas vezes: vim com o "Portátil", em 2015, vim com "Uma Noite na Lua", meu monólogo, e vim também com o "Z.É. (Zenas Emprovisadas)", faz uns 20 anos, aquela peça de improvisação que eu fazia com o Adnet, o Caruso e o Queiroga. Tenho ótimas memórias daqui. Lembro, claro, da moqueca capixaba, que eu adoro, e da torta capixaba também, que eu comi mesmo fora de época.

E lembro dessa vida de orla. Agora mesmo eu tô aqui na Curva da Jurema, tomando um café no Mangalô enquanto falo com vocês, que é uma coisa que eu acho muito gostosa, que não tem no Rio: você tomar um cafezinho na orla. E esse café aqui é ótimo. Eu gosto muito dessa cultura de praia de vocês, de sentar na praia. Tem ótimos restaurantes na orla, você pode comer com vista. Saindo daqui, vou almoçar num restaurante do Bigode, que também não posso deixar de ir.

Gosto muito dessa tradição capixaba de a melhor comida ser com vista, sempre pro mar. Tem sempre o mar por perto, e acho que isso é uma das coisas que eu lembro bem daqui: vocês terem uma orla muito pujante de culinária, de gastronomia, mas também de cultura, de som, de farra. Eu adoro essa relação de vocês com a praia.

O capixaba adora dizer que "não tem sotaque". Existe isso de falar sem sotaque?

Claro que o capixaba tem sotaque! Eu tenho uma grande amiga capixaba, a Luiza Miguez, que escreve o Greg News comigo desde o começo e agora está no Calma Urgente com a gente também. É uma grande jornalista, então eu conheço bem o sotaque através dela.

E tem um sotaque, sim. Tem um S mais mineiro, esse S que não chia, mas tem, às vezes, um cantar um pouco baiano, e o R de vocês é carioca. Então tem um sotaque, sim, claro que tem, e muito próprio. O que acontece é que as pessoas às vezes não identificam tão claramente quanto um sotaque mineiro, carioca ou baiano. Mas ele tem, e eu acho que consigo identificar. Tem essas palavras-chave: "pocar", "iá", "paia", "massa". São bem a cara daqui.

Aqui a gente fala "pocar" no lugar de estourar. Faz sentido para você? Você adotaria?

Faz sentido, eu adoro! E você sabe que isso é tupi, né? Tupi-guarani. É a mesma palavra que deu "pipoca", que é o milho estourado, e é a palavra que deu o "pocar" para estourar. Também tem isso que eu acho bonito aqui: muita influência indígena, na língua e na comida.

Para fechar, vamos te dar uma chance de se redimir com o público capixaba: moqueca capixaba ou peixada baiana?

Um argumento a favor da moqueca capixaba é o fato de que "moqueca" é uma palavra indígena, que vem do tupi, que também nos deu "moquém" e outras palavras que, se não me engano, querem dizer assar. E aí você tem um argumento a favor de a moqueca não ter dendê: ela é indígena, e não havia dendê no Brasil pré-cabralino. O dendê foi trazido pelos portugueses da África. Então, se a moqueca é anterior aos portugueses, ela não pode ter dendê, realmente.

Agora, eu também gosto da moqueca baiana. Gosto das duas, são coisas diferentes. Parece que eu tô sendo puxa-saco, mas eu gosto muito das duas, é verdade. A moqueca capixaba tem vontade de ser mais leve, realmente, mas eu adoro a moqueca baiana. Não quero tomar porrada dos baianos, não! Tem outro amigo daqui de quem eu gosto muito, o Chico Alves, um dos maiores sambistas deste país, grande letrista, brilhante. Ele faz uma moqueca maravilhosa.

A panela também é indígena

O argumento indígena de Duvivier encontra eco no bairro onde ele se apresenta. O Teatro Universitário fica em Goiabeiras, onde as paneleiras moldam à mão as panelas de barro da moqueca capixaba, um saber que os povos originários da região já praticavam antes da chegada dos portugueses. O ofício foi o primeiro bem imaterial registrado pelo Iphan, em 2002.

Serviço

O Céu da Língua, com Gregorio Duvivier
Local: Teatro Universitário da Ufes (Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória)
Datas: 4 a 7 de novembro de 2026, de quarta a sábado
Horários: de quarta a sexta, às 19h e às 21h30; sábado (7), às 16h30 (esgotado) e às 19h
Ingressos: pelo Sympla e na bilheteria do teatro (já esgotados).
Duração: 85 minutos
Classificação: 12 anos

VIXFeed

Feito no Espírito Santo.