O diretor-geral da Faculdade de Direito de Vitória (FDV), Antonio Abikair, publicou na noite de segunda-feira (26) um vídeo em seu perfil pessoal no Instagram em que põe em dúvida o resultado da eleição presidencial e se refere à diversidade sexual como "aberração". A publicação veio um dia depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Logo no início da gravação, Abikair chama o PT de “quadrilha” e pergunta se democracia é “matar um prefeito, Celso Daniel, para não trazer à lume todas as impurezas morais do PT”. Celso Daniel, prefeito de Santo André (SP) pelo PT, foi sequestrado e morto em 2002; a Polícia Civil concluiu que foi crime comum e seis homens foram condenados. O Ministério Público chegou a acusar um empresário amigo do prefeito de ser o mandante, mas ele morreu em 2016 sem ser julgado, e a Justiça nunca comprovou envolvimento do partido.
Mais adiante, ele se dirige a “professores, advogados e outros profissionais” e pede que tenham “responsabilidade ao entrarem em sala de aula”. As falas provocaram reação de estudantes da instituição, que divulgaram uma nota sem identificar os autores. Segundo alunos ouvidos pelo VIXFeed, o anonimato se deve ao medo de retaliações.
No fim da tarde desta terça-feira (27), Abikair publicou no mesmo perfil uma nota de "esclarecimento". Ele afirma que censurou "a imposição vocabular" e que não há "qualquer problema no modo como cada um se autodenomina" ou se identifica. A nota não menciona o termo "aberrações sexuais" e não traz pedido de desculpas.
Procurada, a FDV respondeu com uma nota que não cita o diretor-geral. A faculdade afirma que sua comunidade é formada por pessoas “que possuem diferentes convicções e visões de mundo”, que “todas essas vozes merecem respeito” e que “as manifestações individuais de seus integrantes não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da FDV”.
O vídeo continua publicado no perfil @abikairantonio, mas a conta foi fechada e agora só pode ser vista por seguidores. Até a tarde desta terça-feira (27), a publicação tinha 417 comentários.
O que diz o vídeo
Abikair abre a gravação dizendo ser "impossível não me manifestar" diante de pedidos de voto no PT como defesa da democracia. Ao longo do vídeo, chama o partido de "quadrilha", cita o Mensalão e o Petrolão e acusa o Judiciário de exercer uma "ditadura".
O trecho que motivou a reação dos alunos aparece no fim. Depois de dizer que fala como alguém "da área jurídica", ele se dirige a professores e advogados e pede que "se abstenham de aparecer, pelo menos em público". Em seguida, afirma:
"Tenham responsabilidade ao entrarem em sala de aula e não pregarem esse tipo de aberração, ao não criar essas aberrações sexuais que nós vimos aí, dos todes da vida, das mulheres pansexuais. É isso que vocês querem? É esse o Brasil que vocês querem tocar, gente? Por favor, tenham um mínimo de decência."
Na sequência, diz que "já acabou a época de ser bonitinho se dizer intelectual de esquerda" e descreve esse grupo como "uma manada de esquerda, de uma seita". Sobre programas sociais, afirma que eles criaram "uma geração de párias sociais".
Abikair encerra dizendo não ver "hora de conciliação" nem "hora de pacificação". Ele defende "lutar com todas as armas que temos, em qualquer plano" para restabelecer o que chama de "mínimo de dignidade desse país".
O que ele alega sobre a eleição e o que se sabe
Abikair diz que a eleição foi suspensa "de modo inconstitucional", a minutos do fim, para "dar tempo a uma artimanha, a uma contagem, uma burla às eleições". Também afirma que a vitória de Lula seria "impossível" pela soma dos votos do primeiro turno. Ele não apresenta provas.
O episódio a que se refere existiu, mas não houve suspensão da eleição. No domingo (25), o ministro Cristiano Zanin, do STF, prorrogou até as 19h o encerramento da votação, após reclamação da coligação de Lula sobre falta de ônibus em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas (BA). Depois, Zanin esclareceu que a medida valia só para as seções ainda abertas.
A decisão foi criticada pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. Ele disse que não havia norma que autorizasse a prorrogação e que foi preciso suspender temporariamente o recebimento dos boletins de urna. Ainda assim, o tribunal proclamou o resultado na mesma noite e o ministro afirmou que a eleição ocorreu com segurança.
Lula teve 64.256.232 votos (51,79% dos válidos) e Flávio Bolsonaro (PL), 59.826.041 (48,21%), uma diferença de cerca de 4,43 milhões de votos. Segundo o TSE, pouco mais de 34 mil votos foram registrados após as 17h.
Quem é Antonio Abikair
Abikair é fundador e diretor-geral da FDV, criada em 1995. Segundo a própria faculdade, na época da fundação ele era procurador do Estado e professor da Ufes. Um dos auditórios da faculdade leva o seu nome.
No Instagram, ele se apresenta como procurador do Estado aposentado, advogado e professor universitário.
A FDV está entre as faculdades de Direito mais bem avaliadas do país. Na semana passada, divulgou ter sido apontada como a melhor instituição de Direito do Espírito Santo no Ranking Universitário Folha (RUF) 2026.
Em artigo publicado em setembro de 2025, nos 30 anos da faculdade, Antonio e Jorge Abikair, diretor executivo, escreveram que a FDV forma profissionais "críticos, éticos e profundamente engajados com as transformações sociais".
Alunos falam em medo de retaliação
Uma nota de repúdio passou a circular entre estudantes nesta terça-feira (27). O texto afirma que as falas ferem os valores de uma faculdade de Direito, centrados na defesa dos direitos fundamentais e da democracia, e lembra que a FDV é formada por professores e alunos "com opiniões e vidas múltiplas".
A nota não traz nomes nem assinatura de entidade estudantil. Estudantes ouvidos pelo VIXFeed, que pediram para não ser identificados, dizem que boa parte dos alunos mobilizados é bolsista e teme represálias. "Estamos com medo de nos manifestar, pois a maioria dos alunos é bolsista", disse uma aluna.
Os alunos cobram um posicionamento oficial da faculdade. Também circula na plataforma Change.org um abaixo-assinado intitulado "Defesa da dignidade, diversidade, democracia e respeito aos direitos fundamentais na FDV", que reunia mais de 500 assinaturas até o início da noite desta terça-feira (27).
O que diz a lei
Desde junho de 2019, por decisão do STF no julgamento da ADO 26 e do MI 4733, atos de homofobia e transfobia são enquadrados na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), até que o Congresso aprove legislação específica. A Corte ressalvou a liberdade de crença e de expressão, desde que não configure discurso de ódio.
O que dizem FDV, Abikair e OAB-ES
Procurada pelo VIXFeed, a FDV enviou nota assinada pela área de Comunicação. O texto não cita Antonio Abikair nem comenta diretamente as falas sobre diversidade sexual ou sobre a eleição.
A faculdade afirma que seu papel "não é assumir posições político-partidárias" e que sua comunidade reúne pessoas "que possuem diferentes convicções e visões de mundo". Segundo a nota, "as manifestações individuais de seus integrantes não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da FDV".
A instituição diz ainda que a democracia se constrói "pela capacidade de reconhecer e respeitar quem pensa diferente" e que o Direito deve estar "a serviço da democracia, da dignidade humana e da construção de uma sociedade mais justa e plural".
A nota não respondeu às perguntas sobre eventuais medidas, sobre a existência de código de conduta para dirigentes e sobre garantias a estudantes que temem retaliação.
Antonio Abikair não respondeu diretamente ao VIXFeed. No fim da tarde desta terça-feira (27), ele publicou no perfil, agora fechado, uma nota intitulada "Esclarecimento".
No texto, Abikair reafirma suas críticas ao "poder instituído" e sua "reprovação a todo tipo de interferência espúria no valioso procedimento eleitoral democrático". A nota não repete a acusação de "burla às eleições" feita no vídeo, mas também não a retira.
Sobre as falas a respeito de diversidade sexual, ele diz ter censurado "a imposição vocabular que tem sido feita nos últimos anos". "Que fique claro que não há qualquer problema no modo como cada um se autodenomina, na maneira como cada pessoa se identifica ou caracteriza sua identidade ou orientação sexual", escreveu. Segundo ele, o incômodo é com "a constante tentativa de controle ideologizado da linguagem".
A OAB-ES também foi procurada. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto.
Leia a íntegra da nota da FDV:
Nosso compromisso com a democracia e o respeito à pluralidade.
A Faculdade de Direito de Vitória (FDV) reafirma seu compromisso com a democracia, a liberdade de pensamento e o respeito à pluralidade de ideias. Como instituição de ensino, nosso papel não é assumir posições político-partidárias, mas promover o conhecimento, o pensamento crítico e o diálogo entre diferentes perspectivas.
Nossa comunidade acadêmica é formada por estudantes, professores, coordenadores, colaboradores, dirigentes e egressos que possuem diferentes convicções e visões de mundo. Todas essas vozes merecem respeito, e as manifestações individuais de seus integrantes não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da FDV.
Acreditamos que a democracia não se constrói apenas pelo respeito às opiniões com as quais concordamos, mas, sobretudo, pela capacidade de reconhecer e respeitar quem pensa diferente. A convivência com a diversidade de pensamentos, o diálogo e a liberdade de expressão são valores fundamentais para a formação jurídica e para a sociedade que queremos construir.
São esses os valores que defendemos e que orientam nossa atuação, porque acreditamos que o Direito deve estar sempre a serviço da democracia, da dignidade humana e da construção de uma sociedade mais justa e plural.
Comunicação FDV
Leia a íntegra da nota de Antonio Abikair:
Esclarecimento
Venho por meio desta nota deixar absolutamente claro o sentido de algumas afirmações pessoais que fiz em vídeo recentemente veiculado, que foi objeto de grande repercussão.
Reafirmo meu posicionamento político, minhas críticas ao poder instituído, meu repúdio a uma corrupção sistemática que possui raízes profundas e a minha reprovação a todo tipo de interferência espúria no valioso procedimento eleitoral democrático.
Censurei, no vídeo, a imposição vocabular que tem sido feita nos últimos anos. Que fique claro que não há qualquer problema no modo como cada um se autodenomina, na maneira como cada pessoa se identifica ou caracteriza sua identidade ou orientação sexual. Incomodam, porém, a subversão da língua portuguesa e a constante tentativa de controle ideologizado da linguagem, obrigando-nos ao uso de nomenclaturas, denominações e categorias que supostamente garantiriam respeito e igualdade magicamente, tão somente por serem adotadas. Não garantem, apenas desviam o foco do problema.
Friso que minha fala é de rechaço político a uma imposição ideológica com a qual definitivamente não concordo, mas jamais contra a maneira como cada pessoa se identifica ou expressa sua personalidade no mundo. Minha fala, como advogado, como cidadão e como ser humano é e sempre será sobre democracia. E, só por isso, sempre será sobre liberdade e igualdade.
Antonio Abikair, no Instagram (@abikairantonio)
Feito no Espírito Santo.



