Queria ter uma história bonita e leve para escrever, feita de amor e chuva. Eu ouvi que amor é chuva porque molha, e fiquei depois pensando em cada gota de chuva e cada gota de amor.
Tem algum tempo que um amor não me invade as frestas, não me empapa, não me alaga, não escorre de minhas calhas ou afofa meu chão. Tem um tempo que não amo uma pessoa nova com esperança de música lenta e planos de vida na boca.
Aparece um sorriso ou outro, e há pessoas que volta e meia curtem meus stories na internet. Não sei muito bem o que fazer com isso. Não escuto músicas românticas ou ando dançando na chuva com curtida de stories. Faço o que se espera:
Posto outra foto, meço outro sorriso, espero aquele like virando janta. Espero ser eu mesma a janta um dia quem sabe. Eu prefiro a vida offline. Houve um tempo mais cheio em que eu precisava fugir das músicas porque todas elas rendiam grandes lembranças de amores maciços e doloridos como furúnculos.
Estou atualmente curada, quase apática. Estou curada de esotérico, do Gil, e até do Ivan Lins cantando lembra de miiim de quando a gente se casaaava ao luaaar. É impossível, no entanto, me curar de Rosa Púrpura de Cubatão e de Quero encontrar um amor, ambas de Sérgio Sampaio.
Não me esqueço. Eu fritava um bife e o moço cantava muito bonito “Musa em que me inspiro e por isso mesmo viro/ Alvo fácil pro seu tiro, charlatã/Chama em que me queimo/ confissão de amor que teimo em evitar… qual maçã”…
E o amor foi virando chuva também porque chovia, e de mãos dadas a gente correu na chuva e ele me rodou pela cintura. O Ivan Lins talvez cantasse como na abertura da novela “Lembra de miiiim”.
Três anos depois era F quem me embalava por traz num daqueles abraços em que a mão fica no umbigo e cantava no meu ouvido “Leeeembra de miiiim”. E a gente ria muito porque tudo que a gente fazia era muito engraçado. Foi um bonito começo de amor. Depois acabou.
Esotérico veio de R em 2009, diretamente enviado dizendo que era para mim. Não adianta nem me abandonar, Aline. E foi ele quem abandonou. Custou a passar. Hoje escuto impune. Não tem mais pus.
Mas talvez eu minta. Ontem mesmo eu disse para minha analista que não sei muito bem qual meu prognóstico de amor. Ela me corrigiu “perspectiva” e eu pensei “prognóstico” mesmo, como quem relata o avanço de uma doença.
Descobri que há infiltrações de amores velhos em minhas paredes. Tenho medo de excesso de conceções, do tempo que as lembranças duram e do tanto que eu sou capaz de me doar. E, no entanto, não consigo conceber a vida sem querer me doar e me entregar e dançar rodando na chuva.
Amor é chuva. E de novo vai gotejar como se minha vida fosse uma grande Macondo, e depois quando o sol abrir, eu ainda não fico seca, porque nascerão rios em mim. Eu serei feita de lençóis. Jorrarei pelo mundo fazendo curvas, irrigando terras, florindo.
Amor é chuva e vai ensopar o meu domingo, e isso não é bem um prognóstico ou perspectiva ou nada. É um sonho mesmo. “Quero encontrar um amor misto de samba leve com heavy metal/ Que ponha as unhas de fora mas no “H” da hora me venha total”.
Eu gosto de chuva.

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