Eu e Sérgio Sampaio temos um convívio antigo que se iniciou desde que eu ouvi pela primeira vez a música “tem que acontecer”. E como nada permanece inalterado até o fim, o convívio foi se aprofundando a cada música nova escutada. O bloco na rua, os oito olhos espiando o jantar, a cabine 103 em que fui internado ontem junto com outras dez pessoas, a linha reta que o poeta vê e quer logo entortar. Vê como dói?
Essa relação de proximidade inclui o livro Sem a Loucura Não Dá, que organizei junto com o editor Gustavo Binda e traz 24 contos inspirados nas composições de Sérgio Sampaio. Mas para além do livro e das músicas, acumulo algumas anedotas envolvendo o homem, o mito, este que é um de meus compositores preferidos.
Compartilho, pois, em ordem decrescente de memória:
Domingo eu estava fazendo almoço ouvindo o maravilhoso disco sociedade da Gran Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez. Tocava a música “todo mundo tá feliz aqui na terra”. Eu, obviamente, cantava junto enquanto mexia a panela. A campainha tocou. Era meu vizinho dizendo que é um acinte eu cantar alto todo mundo tá feliz aqui na terra sendo que isso não é verdade (mas o vizinho disse que estava muito bem, obrigado).
A mesma música esteve comigo em recente desavença. Assim que o adversário saiu de perto, um amigo puxou “todo mundo tá feliz?” e eu continuei “aqui na terra”, cantando a letra inteira junto com minhas amigas antes de ele explicar que estava, na verdade, se referindo à Xuxa. “Estou na porta e na janela, na paz, na calmaria, no disco voador do amigo” >> “todo mundo pede bis quando para de tocar”.
Em outro momento, passei diante de uma casa bonita com uma festa acontecendo e olhei para dentro, ao que um amigo participante (a única pessoa que eu conhecia) gritou: “Aline, você chegou na hora em que está tocando Sérgio Sampaio!” – e era o próprio em voz e melodia, mas eu não pude ficar na festa porque não tinha sido convidada.
Certa feita também fui levar um casal de amigos de Curitiba – fãs de Sérgio – para conhecerem o fabuloso Cochicho da Penha, que tocou o vinil do “tem que acontecer” todos os dias por cerca de quarenta anos de vida. Lá chegando, apresentei:
_ Seu Geraldo, esse é meu amigo fulano, eu disse pra ele que você morou com o Sérgio Sampaio. _ Achei que seu Geraldo alegraria o visitante com anedotinhas com as quais por vezes ele nos brindava.
_ Eu morei com ele, não! Ele que morou comigo! A casa era minha.
Meu amigo curitibano adorou.
Por fim, recordo-me de ocasião em 2016, época em que eu estava particularmente envolvida nos bastidores da comemoração dos 70 anos dele (por conta do livro Sem a Loucura Não Dá). Naquela época, jornalistas de vários veículos me ligavam para saber sobre ele, o bardo cachoeirense tido como maldito de quem eu tanto gosto.
Na maior parte das vezes o assunto era com outras pessoas, o Gilson Soares que produz o festival Sérgio Sampaio há anos, o João, filho do Sérgio, um documentarista aleatório e por aí vai…
Não lembro quem foi a criatura que me ligou querendo entrevistar o Sérgio porque tinha tido a informação de que eu era a assessora de imprensa do grande compositor. Eu expliquei, com muito pesar, que o homem estava morto já desde 1994.
Meus atributos de assessoria de imprensa não passavam, como ainda não passam, por entrevistas feitas pela brincadeira do copo. E, também, o sinal de wi-fi não está essas coisas lá no além. (Pode ser que melhore quando chegar o 5g por lá).

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