Atualizado em 03/04/2025 – 22:39
Por: Marina Amaral
Na semana que se completam 61 anos do golpe militar de 1964, a Agência Pública recebeu Vera Paiva, a filha mais velha de Eunice e Rubens Paiva, para um bate-papo com Marina Amaral, diretora executiva e co-fundadora da Pública. A conversa foi transmitida ao vivo no canal de YouTube da Pública.
Paiva é professora titular do Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) desde 1987. Ela também atua na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos desde 2014, da qual sua mãe, Eunice, fez parte, em 1996. Na conversa, a psicóloga falou sobre o sucesso internacional do filme Ainda Estou Aqui e os debates relevantes no Supremo Tribunal Federal (STF) influenciados pela obra, que podem afetar a Lei da Anistia, levando 18 ações a julgamento que envolvem pessoas mortas ou desaparecidas durante o regime.
“Eu me preocupo menos com a punição stricto sensu daqueles responsáveis pela morte do meu pai, por exemplo, – e eu gostaria de ver isso – e mais que se entenda a punição pela violência de Estado mais amplamente, que não se fique perdoando os caras [da polícia] que toda hora estão matando gente”, disse Paiva sobre a ação no STF, relatada pelo ministro Flávio Dino, de excluir da Lei da Anistia os crimes de desaparecimento de corpos.
“Se a gente não começar a punir os de hoje, eles ainda estarão aqui ameaçando de continuar sendo assassinos, de continuar perpetuando esse tipo de coisa”, defende.
Para ela, Ainda Estou Aqui, premiado com o Oscar de Melhor Filme Internacional e com um público de mais de 5 milhões de espectadores brasileiros, furou a bolha e até foi assistido por quem votou em Bolsonaro, mas não chegou aos bolsonaristas mais convictos. Segundo a psicóloga, o sucesso internacional do filme também dialoga com contexto de ameaça mundial às democracias.
“Esse modo de reagir, de tocar a vida e cuidar dos filhos, é um modo de reagir de milhares de Eunices do Brasil […] As cenas do filme repercutem nas várias Eunices a violência de Estado hoje. Na periferia, são Eunices que seguram a onda e que ficam em busca da justiça”.
Com estas referências, Paiva “viveu política dentro de casa”, mas, com o golpe, teve de aprender a “esconder e a silenciar”. Ela atuou no movimento estudantil e foi uma liderança importante na reconstrução dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCE Livre) da USP e da União Nacional dos Estudantes (UNE), proibidos pela ditadura militar. Na sua trajetória política, também participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). “Minha mãe, a primeira coisa que ela falou [sobre o movimento estudantil] foi ‘pelo amor de Deus não me ponha nessa situação nunca mais’”. Paiva conta que, ainda assim, Eunice a apoiava e a acompanhava ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) quando era obrigada a comparecer: “Ia toda vez, estava lá enfrentando firme e forte”.
Paiva também trouxe uma dose de esperança falando sobre a importância da participação da juventude nos movimentos de resistência no Brasil e terminou com um convite para a 5ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado, um ato que pretende reforçar a continuidade da luta por memória, verdade, justiça e reparação. A Caminhada ocorre neste 6 de abril, a partir das 15h, com ponto de encontro em frente ao antigo DOI-Codi (Rua Tutoia, 921, Vila Mariana).

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